Mais uma vez, escapei.

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Sua cabeça repousava gentilmente em meu ombro. Não havia mais ninguém naquela sala de cinema. Mesmo quinze minutos após os créditos rolarem, e toda aquela massa de qualqueres deixar-nos a sós, em um gesto de gentileza involuntária, continuamos ali. Como se aquele blockbuster babaca fosse durar para sempre. Quem dera. O silêncio me invadia. Não havia nada que eu pudesse dizer que servisse de escora, diante do mundo que desabava em nossas cabeças. Uma gravidez indesejada, no auge de nossas adolescências. Por algum motivo eu já havia desistido da ideia de contar aos meus pais, e pedir ajuda, que jamais seria negada. A discussão de dois dias atrás sobre, ainda ecoava no vazio de nossas atitudes, aquele eco não me distraía. Ignorávamos nossos problemas, coisa que ambos frequentemente faziamos ao nos encontrarmos em situações complicadas. Quem dera ser tão simples, quem dera. O cheiro único de manteiga derretida impregnada nas poltronas de veludo, ia se tornando menos perceptível a cada minuto que se passava. Minutos que pareciam horas. A cada pensamento inacabado que me ocorria, aqueles infinitas eternidades de sessenta segundos, pareciam se tornar mais insuportáveis. Cansado de colecionar tentativas falhas tornar o breu menos escuro, vomitei palavras:
“Tem que resolver isso aí”
“Resolver como ? Você tá louco” – Ela questionava.
“Você sabe… Isso… Agora… Não pode ser bom.”
Uma lágrima escorria do seu olho esquerdo, carregado em maquiagem, aquele pedacinho de mar, rasgava um traço preto em seu rosto.
“Não! Não! Não!” – Cochichava, como quem tenta se convencer de algo.
“Andrea, você sabe que é o único jeito. Nós não temos vontade, meios, ou estrutura.”
“Eu não sei… A vida não presta” – Ela suspirava.
 Sua cabeça começava a pesar em meu ombro já molhado, fazendo-o formigar

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Mal eu sabia que essa seria a última vez, que eu a veria se queixar da realidade, como quem está nessa vida de passagem, rumando algum lugar melhor. Saímos caminhando da sala de cinema arrastando-nos. Mesmo tentando manter minha postura, era impossível. Não havia como sustentá-la. O peso das consequencias catalizava o colapso que me consumia. O peso da vida adulta massacrava a minha estrutura de criança, que em traços sutis, poucos enxergavam. Era tão simples mimetizar insegurança com etiquetas. Não era isso que eu gostaria de mostrar, no entanto era aquilo que meus iguais gostavam de ver. A mercadoria se adaptava ao mercado. A cada segundo de silêncio, eu sentia o abismo entre nós se alargando. E por alargar, me refiro ao crescimento de algo que sempre esteve lá. O contato físico e o carinho trocado era quase como um favor que fazíamos um ao outro. Sim, haviam sentimentos, mas era algo muito pequeno, embebedado por um coquetel de hormônios, carência, e frequentemente, álcool. Ambos velávamos um vazio qur parecia prometer se completar algum dia. Eramos colecionadores de decepções, curadores do nada.

Como de costume, a acompanhava até seu ponto de ônibus. Já havia desistido de tentar resolver aquela situação ali. Mais uma vez protelava o que não devia. A esse ponto eu tinha certeza que nao seria a solução. Velhos hábitos não mudam. Chegávamos a metade do caminho de seis quadras. O silêncio nos consumia. Nesse ponto já não mais olhava para ela. Me sentia desconfortável. No momento não percebi, mas tenho certeza que ela não olhava para mim também. Seus passos ligeiros rasgavam a calçada já destruída. Mesmo sendo um dia tão negro, o sol com poucas nuvens sorria pra mim.Talvez eu fosse o único de nós dois a perceber isso. Talvez eu fosse o único naquele bairro todo que prestava atenção em algo além da sensação de correria que cerca o centro. Cruzávamos uma avenida, eu ainda divagava com a ideia irônica que o tempo úmido trazia. Tomei ar, pensando em fazer qualquer comentário descartável que estreitasse a distância entre nós. O som estridente de uma buzina rasgou o típico burburinho daquela multidão que esperava para cruzar a faixa de pedestres. Em um reflexo me virei, e me mantive estático por pouquíssimo tempo. Tempo curto, mas suficiente para a ver sorrindo em meio a tinta de lágrimas e maquiagem que já pintava o seu rosto. Assim que meus sentidos embaralhados, tiveram um lapso de sobriedade. Pude então perceber o que acontecia. Embora quisesse acreditar, que minha percepção, como parte de mim, também fosse fã de iludir como passatempo. Não. O peso do momento não me deixava iludir. Em uma das primeiras vezes em que me deparei com algo inadiável, vi aquele ônibus lotado levá-la. Assim como eu havia feito inúmeras vezes, aquele monstro amarelo de seis rodas a vestia. Não Reagi. Assim que o fluxo cessou, devido a notícia do que acabara de acontecer, eu continuei estático. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Ela já não estava mais lá. Eles já não estavam mais lá. Eu já a amava o suficiente para virar as costas e continuar andando. Mesmo que com uma estabilidade psicológica Joanina, assim o fiz. Enfim, o problema estava resolvido.

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